Saga de menino nascido em 2002 no Rio é o retrato dos últimos oito anos do Brasil
POR CHRISTINA NASCIMENTO
Rio - Sob o céu azul, o caçula da família Silva joga bola numa comunidade da Zona Norte, do Rio de Janeiro. O sol ameno e o campo esfolado — com alguns fiapos de grama verde — em nada lembram a pequena São José de Mipibu, cidade do interior do Rio Grande do Norte de pouco mais de 39 mil habitantes. É lá, na região de sobrados e casarões remanescentes do período áureo da cana-de-açúcar, que começa a história do retirante Francisco Canindé da Silva, 36 anos, pai do menino que sonha ser jogador do Flamengo e que carrega no nome a esperança de uma geração que deixou a linha da miséria do País nos últimos oito anos.
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Este ano, a família ficou completa: o filho mais velho, Felipe (à direita de seu pai), que era criado pelos avós, veio morar no Rio | Foto: Fernando Souza / Agência O Dia
“Vem aqui, presidente”, chama uma das professoras de Luiz Inácio Matias da Silva, o Lulinha, 7 anos, no pátio da Escola Municipal Augusto Frederico Schmidt, onde ele estuda. Enquanto corre, faz caretas e dribles com uma bola quase murcha, o menino do Morro Camarista Méier dispara: “Para de fotos! Eu não sou o Lula famoso!”.
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De fato, não é. Mas, para a família Silva, que há nove anos deixou o agreste em busca de uma vida melhor no Rio, o menino se tornou uma espécie de amuleto. Ele nasceu nos últimos minutos do dia 31 de dezembro de 2002. Pouco mais de 15 horas depois, o operário Luiz Inácio Lula da Silva entrava para história ao tomar posse como presidente da República, eleito com quase 53 milhões de votos no ano anterior.
Nome do menino foi ideia do médico
A escolha de batizar o primeiro dos cinco filhos que nascia em terras cariocas com o nome do futuro presidente surgiu de uma conversa de corredor de hospital entre Francisco e um médico. “Ele deu a sugestão e eu gostei. Achei que tinha tudo a ver. Pensei: isso vai dar sorte. É um nordestino como eu, que chegou tão longe”, contou o pai de Lulinha.
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A pouca idade do garoto o impede de ter a exata dimensão do passado da família, que ficou dias sem ter o que comer quando chegou ao Rio. “A gente não tinha absolutamente nada em casa para alimentar as crianças. Faltava até o básico para limpeza pessoal”, lembrou Francisco, emocionado. Na época, ele, a mulher Itônia, (33) e os filhos — Fernando (16), Juvenal (13) e Jaíne (11) — não fugiam da seca, mas da falta de oportunidades de emprego no Rio Grande do Norte. Em 2001, quando resolveram migrar, apenas 36,49% da população potiguar, de acordo como o IBGE, contribuíam para a Previdência. No ano passado, esse número chegou aos 40%.
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Do prato vazio, que colocava Lulinha, seus pais e irmãos na condição de miséria, a passarem a ser membros da chamada classe E — pessoa com renda domiciliar total mensal até R$ 804, pelos parâmetros da Fundação Getúlio Vargas (FGV) — foram necessários quatro anos. Neste período, Francisco começou a trabalhar como auxiliar de serviços gerais num supermercado, emprego que deixaria em 2007 para trabalhar como biscateiro na área de construção civil para ter uma renda que hoje é em torno de R$ 700.
Junto com eles, 20,4 milhões de brasileiros, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), saíram da linha da pobreza absoluta na Era Lula. Resultado de uma economia que deu saltos favoráveis, principalmente, para as classes D e E e que permitiu a uma parcela da população comprar o que, até então, era considerado um conforto inatingível: celular, computador, freezer e TV.
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De fato, não é. Mas, para a família Silva, que há nove anos deixou o agreste em busca de uma vida melhor no Rio, o menino se tornou uma espécie de amuleto. Ele nasceu nos últimos minutos do dia 31 de dezembro de 2002. Pouco mais de 15 horas depois, o operário Luiz Inácio Lula da Silva entrava para história ao tomar posse como presidente da República, eleito com quase 53 milhões de votos no ano anterior.
Nome do menino foi ideia do médico
A escolha de batizar o primeiro dos cinco filhos que nascia em terras cariocas com o nome do futuro presidente surgiu de uma conversa de corredor de hospital entre Francisco e um médico. “Ele deu a sugestão e eu gostei. Achei que tinha tudo a ver. Pensei: isso vai dar sorte. É um nordestino como eu, que chegou tão longe”, contou o pai de Lulinha.
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A pouca idade do garoto o impede de ter a exata dimensão do passado da família, que ficou dias sem ter o que comer quando chegou ao Rio. “A gente não tinha absolutamente nada em casa para alimentar as crianças. Faltava até o básico para limpeza pessoal”, lembrou Francisco, emocionado. Na época, ele, a mulher Itônia, (33) e os filhos — Fernando (16), Juvenal (13) e Jaíne (11) — não fugiam da seca, mas da falta de oportunidades de emprego no Rio Grande do Norte. Em 2001, quando resolveram migrar, apenas 36,49% da população potiguar, de acordo como o IBGE, contribuíam para a Previdência. No ano passado, esse número chegou aos 40%.
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Do prato vazio, que colocava Lulinha, seus pais e irmãos na condição de miséria, a passarem a ser membros da chamada classe E — pessoa com renda domiciliar total mensal até R$ 804, pelos parâmetros da Fundação Getúlio Vargas (FGV) — foram necessários quatro anos. Neste período, Francisco começou a trabalhar como auxiliar de serviços gerais num supermercado, emprego que deixaria em 2007 para trabalhar como biscateiro na área de construção civil para ter uma renda que hoje é em torno de R$ 700.
Junto com eles, 20,4 milhões de brasileiros, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), saíram da linha da pobreza absoluta na Era Lula. Resultado de uma economia que deu saltos favoráveis, principalmente, para as classes D e E e que permitiu a uma parcela da população comprar o que, até então, era considerado um conforto inatingível: celular, computador, freezer e TV.
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O Dia