Escuta revela 'corrida ao ouro'
Federais prendem 26 policiais e um delegado do Rio
Rio - Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça revelam o esquema utilizado por policiais para furtar armas e bens deixados por traficantes do Complexo do Alemão — o chamado ‘espólio de guerra’. Outro trecho aponta que os envolvidos chegaram a comparar os furtos durante a operação de ocupação das favelas do Alemão com a corrida pelo ouro nos garimpos de Serra Pelada, na década de 1980.>> FOTOGALERIA: Policiais cumprem mandados por todo o Estado
Policial 1: — Vamos passar o Natal bonito.
Policial 2: — É isso mesmo. Fica até melhor se for a delegacia toda. Para o blindado ali perto da mata, mais umas viaturas. Está todo mundo dentro. O que tu acha?
Policial 1: — Pode ser sim, cara. Não é aquele mesmo efetivo que ficou até o final junto? Pode botar todo mundo. Para a gente ter aquela tranquilidade para olhar tudo com calma.
Homem 1: — Tudo que é batalhão rodando aqui, irmão. tentando a sorte, todo mundo.
Homem 2: — Aí virou Serra Pelada, aí em cima no topo do morro, é mesmo?
Homem 1: — Nego tá cavando tudo aqui, parceiro. Tudo revirado, parceiro. Não sobra nada. Não fica nada para contar a história.
Outro grampo aponta que o PM Paulo Araújo Costa, adido na 22ª DP (penha), também demonstrava ser adepto do espólio de pertences de criminosos.
Araújo: — Pega munição para usar, p.! Tem munição pra c.
Vazamentos
Vazamentos de informações para traficantes, corrupção, desvios de armas apreendidas, proteção a caça-níqueis e atuação em milícia. Para prender 45 envolvidos com esses crimes — 28 deles policiais civis e militares —, foi desencadeada ontem a Operação Guilhotina, realizada em conjunto entre a Secretaria Estadual de Segurança, a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Estadual. Até a noite, 35 acusados foram presos, sendo 27 policiais. No grupo, está o delegado Carlos Antônio Oliveira, ex-subchefe operacional da Polícia Civil e que até ontem era subsecretário municipal de Ordem Pública. “Polícia nenhuma do mundo vai virar a página, com esse tipo de gente, sem cortar na carne”, afirmou o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.
Cerca de 380 agentes federais e 200 das forças estaduais participaram da operação, que contou com dois helicópteros e quatro lanchas. Houve buscas e apreensões nas residências dos acusados e até em duas delegacias, a 17ª DP (São Cristóvão) e a 22ª DP (Penha). As unidades — onde trabalhavam policiais acusados — chegaram a fechar.
As investigações revelaram a ligação de policiais com Antônio Bonfim Lopes, o Nem, chefe do tráfico da Rocinha. O bandido pagaria R$ 50 mil mensais para receber informações privilegiadas. Outro traficante — Rogério Rios Mosqueira, o Roupinol, ex-chefão do Complexo de São Carlos, morto ano passado — também gastava a mesma
quantia para saber com antecedência sobre ações da polícia.
Vazamentos de operações para tentar prender os dois criminosos deram origem à Guilhotina. E o que era inicialmente uma investigação sobre o tráfico de drogas se desdobrou na apuração de outros crimes. Depoimentos, filmagens e interceptações telefônicas levaram à descoberta, por exemplo, de detalhes sobre a atuação da milícia que domina a Favela Roquete Pinto, em Ramos. A comunidade foi cercada ontem pela PF.
Escutas telefônicas mostram ainda que, no fim do ano passado, durante a ocupação dos complexos da Penha e do Alemão, policiais teriam se apropriado do ‘espólio de guerra’ — armas e bens, como eletrodomésticos e até tênis largados por traficantes.
Segundo o procurador-geral de Justiça, Cláudio Lopes, após a análise do material retido, os presos serão ouvidos pela PF. O inquérito estará a cargo do delegado federal Alan Dias, que tem dez dias para remetê-lo ao MP. “Em 15 dias devemos nos pronunciar em relação à denúncia dos envolvidos”, afirmou Homero Freitas Filho, promotor da 1ª Central de Inquéritos.
Delegada é levada para a PF
Titular da 22ª DP, a delegada Márcia Beck foi levada à Polícia Federal para prestar esclarecimentos. Ela teria atendido a um telefonema de um policial, que queria saber o que estava acontecendo na delegacia. Havia a suspeita de que seria um dos envolvidos.
“A delegada não foi citada no inquérito; no entanto, devido a uma conduta isolada no momento da ida dos policiais à delegacia, os agentes acharam por bem conduzi-la a prestar esclarecimentos e ela veio espontaneamente”, explicou Gioia.
Segundo o promotor Márcio Nobre, a atuação criminosa dos policiais começou na Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae), então chefiada por Carlos Oliveira. Em seguida, a maior parte dos agentes foi transferida para a 17ª DP e 22ª DP.
Mantido no cargo por Beltrame, Turnowski diz que se sente traído
O maior questionamento feito ontem ao secretário José Mariano Beltrame era se o chefe de Polícia Civil, Allan Turnowski, seria mantido no cargo. “Ele goza da minha inteira confiança”, afirmou o secretário. Enquanto isso, Turnowski prestava um depoimento de duas horas na PF. Ao deixar o prédio, ele disse que havia cumprido seu dever.
“Concordo plenamente com a operação e com a Polícia Federal, que fez um trabalho sério. A instituição sangrou, mas saímos fortalecidos. Tenho certeza de que cumpri meu dever e participei ativamente do processo, porque prendi o informante que gerou essa investigação. Se tivesse algo contra mim, o próprio secretário não teria dito que confia em mim. Fui lá prestar esclarecimentos sobre o funcionamento da Polícia Civil”, disse Allan. O delegado ressaltou que vai tomar providências contra a corrupção, mudando os delegados das unidades investigadas.
O chefe de Polícia disse que se sentiu traído pelo ex-subchefe Carlos Oliveira. “Me sinto traído. E daí que ele era subchefe? Se vendeu arma, é mais traidor ainda. Achei que o Oliveira seria um grande chefe operacional, essa foi a intenção de trazê-lo. Ele foi exonerado do cargo porque não cumpriu as metas”.
Reportagens de Adriana Cruz, Isabel Boechat, João Noé, Leslie Leitão, Marco Antonio Canosa, Marcello Victor, Maria Inez Magalhães e Vania Cunha
