sexta-feira, 25 de março de 2011

Carros contra a dengue viram paraíso do 'Aedes'

Núcleo de combate vira vilão

Carros que deveriam estar nas ruas contra a dengue podem ser foco do mosquito na Zona Oeste

POR FERNANDA ALVES
Rio - Em casa de ferreiro, o espeto é de pau, já diz o ditado. Na garagem do Núcleo de Combate à Dengue da Secretaria Municipal de Saúde, em Campo Grande, cerca de 20 carros que deveriam estar nas ruas contra a doença estão abandonados num matagal, gerando possíveis focos de reprodução do mosquito da dengue. A menos de 100 metros dali, uma moradora de 11 anos está com a doença. E outros vizinhos já foram infectados mais de uma vez.

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Em 2007, O DIA  denunciou o abandono, nesse mesmo local, de 80 veículos doados pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em 2002. Ontem, os cerca de 20 vistos pela reportagem do jornal tinham o mesmo adesivo dos flagrados em 2007. A secretaria não soube informar se os automóveis são os mesmos. O terreno também serve de garagem para carros em bom estado, que transportam diariamente agentes de saúde.
Foto: Deisi Rezende / Agência O Dia
No pátio do Núcleo de Combate à Dengue, em Campo Grande, picapes e Kombis doadas à prefeitura para eliminar o mosquito são tomadas pelo mato | Foto: Deisi Rezende / Agência O Dia
A infectologista do Instituto de Pesquisas Clínicas Evandro Chagas (Ipec/Fiocruz) Jois Ortega ressalta que não é recomendado deixar caçambas de caminhonetes sem proteção em locais sujeitos a receber água das chuvas.

Segundo moradores da região, não há cuidado com os veículos abandonados. “Ficam todos largados. Só são retirados quando a imprensa reclama. Tenho medo de que estejam armazenando água e se tornando criadouros de mosquitos”, revelou um comerciante da área.

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Enquanto isso, a pequena Larissa Abreu, 11, moradora da Rua Charles Dickens, vizinha da garagem, passa mal há três dias com dengue. “Ela começou a sentir dores do corpo na terça e teve febre alta”, contou a avó da menina, Valcir Conceição Silva, 56 anos. A aposentada teme pelo descaso da prefeitura. “Se eles não cuidam nem do quintal deles, como vou me sentir segura de que estão combatendo o mosquito?”, questiona. Na vizinhança, para muitos moradores, já é rotina passar repelentes para sair na rua. “Passo em mim e nos meus filhos a cada 4 horas”, contou a técnica de enfermagem Erica Matos, 34.

Falta vistoria pelo bairro

O medo de ter novamente a doença em uma possível futura epidemia aterroriza Enilda Paula Barbosa, 61 anos. A costureira, que da janela consegue ver a garagem dos carros sucateados, revela que a proximidade com o Núcleo de Combate à Dengue só traz mais insegurança.

“Eles não fazem vistorias nas casas para ver vasos de plantas e caixa d’água há pelo menos três anos”, contou Enilda, que já teve dengue duas vezes, assim como as duas filhas, que moram na mesma casa.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que os carros guardados no local não têm condições mecânicas de uso, e que está em curso processo de baixa de patrimônio, para que sejam inutilizados. Segundo a secretaria, o pátio e os automóveis passam por vistorias rotineiras para evitar focos de mosquito.