Hoje, no Valor, há uma matéria que põe a nu como são construídas as tais “expectativas de mercado”.
Diz o repórter fernando Travaglini:
“As expectativas de inflação dispararam na última semana. A piora das projeções de economistas e analistas que respondem ao Boletim Focus, do Banco Central (BC), veio depois de importante discurso feito pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, no Senado, indicando que pode adotar novas medidas macroprudenciais, mas que os juros não devem subir além do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) de abril.”
Ou seja, o “mercado” quer juros, senão passa a prever inflação.
É claro que houve aumento de preços. E início do ano é mesmo (ainda) uma época em que eles acontecem com mais força.
É o período dos aumentos de transportes, de mensalidades escolares e em que os produtos alimentícios costumam sofrer as consequências de fenômenos naturais, como chuvas e/ou excesso de calor. Transportes e alimentação são 44% da estrutura do IPCA.
E há outro grande peso no índice. Em fevereiro, quando o índice foi de 0,8% (contra 0,78% de fev/2010), metade do índice veio do Educação, com alta de 5,81%. Como, aliás, aconteceu em 2010, 2009, etc, etc…
A inflação dos dois primeiros meses de 2011 teve exatamente o mesmo comportamento de 2010. Somou 1,64%, bem pouco acima dos 1,54% do ano anterior. Para você comparar, este índice em 2009 tinha sido bem menos, 1,03%, e fizeram o mesmíssimo escarcéu.
O IPCA-15, uma espécie de prévia do índice oficial, divulgado semana passada, registrou queda de 0,97% para 0,60%. O resultado final de março deve ficar bem próximo do obtido ano passado: 0,52%, talvez um pouco acima pelo fato de, este ano, o carnaval ter sido em março e, com isso, o eleve um pouco.
Como os “terroristas de mercado” se repetem, peço licença aos amigos leitores para repetir também um trechinho do comentário que fiz, também há um ano, sobre essa jogada.
“Para legitimar o apetite pela remuneração do capital, que são os juros, é preciso criar o terror. O nome do terror é inflação.
Passamos o primeiro semestre ouvindo os comentaristas e analistas econômicos repetindo isso. O tal boletim Focus, do Banco Central, onde os bancos projetam suas expectativas de inflação e juros futuros, ganhou ares de Oráculo de Delfos.
Se eu quisesse paracer um “economista bacana”, poderia dizer que isso era um wishful think, que traduzido livremente seria algo como chegar a uma conclusão baseado, essencialmente, na sua própria vontade de que aquilo aconteça.
Por isso, faz tempo que eu venho escrevendo aqui (e aqui, já em janeiro [de 2010]) que não há nenhuma explosão, nem mesmo a inflacionária, que usam como pretexto para seus apetites. é certo que há inflação, mas eu acho que se contam nos dedos de uma só mão os exemplos na história onde houve crescimento econômico acompanhado de deflação ou estabilidade total nos preços).”
O jogo, como se vê, é antigo. Mas os objetivos, agora, são novos: ver se criam, com o terror, a queda da equipe econômica de Dilma. Mas se enganam redondamente. A Presidenta, que já mostrou que não tem medo de cara feia e conhece melhor do que ninguém essa turma, não vai alterar seu pulso com essa manobra.
