sexta-feira, 26 de novembro de 2010

PMs do Bope se surpreendem com a reação dos moradores do Complexo da Penha

Desejo de paz na recepção a policiais da tropa de elite

Rio - Dentro da favela, lençóis e panos brancos nas janelas num pedido de paz na Vila Cruzeiro. Acostumados a ser hostilizados por moradores durante operações na comunidade, policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) se surpreenderam, ontem, com o apoio. Por onde passavam, os ‘caveiras’ recebiam oferta de água, comida e abrigo.
Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
Com medo de bala perdida, mães correm de mãos dadas aos filhos rumo à escola | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia

“Nunca fomos contra os policiais, mas a morte de inocentes tem que parar de acontecer. Que eles façam o trabalho deles. Que entrem de uma vez só. Será que vão colocar uma UPP aqui?”, perguntava, curioso, um vendedor que trabalha e mora no local.
>> FOTOGALERIA: PM, Polícia Civil e Marinha se unem para o combate à violência

Fora da favela, ruas desertas, comércio e escolas fechadas. No início da manhã, antes da chegada dos policiais na Penha, as ruas estavam lotadas com o comércio a todo vapor. Aos poucos, os carros da Polícia Militar chegaram, e a Avenida Brás de Pina foi se esvaziando. Em duas horas, o que antes aparentava tranquilidade se transformou num cenário de guerra.

Os poucos pedestres que se arriscavam a passar próximo nos locais onde ocorriam os confrontos paravam para elogiar a ação da polícia. Diante de uma concentração de homens do Bope, uma senhora passou apressada, mas fez um alerta: “Vocês tomem cuidado ao entrar aí. Vão com Deus”. Muitos diziam que iam para a casa de parentes. “Estou saindo com minha família antes que seja tarde demais. Não quero que meus filhos sejam vítimas dessa guerra”, desabafou um morador. Empresas localizadas na região também fizeram reuniões para orientar os funcionários.

Utilizado como base de controle das operações no Complexo da Vila Cruzeiro, o 16º BPM (Olaria) foi alvo de vários ataques ontem. Os criminosos atiraram contra os policiais e fuzileiros navais que se protegeram atrás dos veículos blindados que também foram usados de escudo por dezenas de pessoas que passavam pelo local e se desesperaram no meio do fogo cruzado.

O comandante-geral da PM, coronel Mario Sergio Duarte, que estava no local, comandou pessoalmente a operação para reprimir a ação dos criminosos. À tarde, duas viaturas da Divisão de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) chegaram ao 16º BPM escoltando um carro onde estavam dois homens e um corpo que seria de um trabalhador, vítima de uma bala perdida. Para aumentar a tensão entre os moradores, no fim da tarde um blindado da Marinha bateu num poste e deixou parte da favela sem luz.

Tiros durante enterro de menina

O enterro de Rosângela Alves, 14 anos — morta quarta-feira com um tiro no peito durante confronto na Penha —, foi marcado por momentos de terror. Enquanto a adolescente era velada numa capela próxima ao Cemitério de Inhaúma, houve um intenso tiroteio entre a polícia e bandidos numa favela próxima. Com medo de serem atingidos por balas perdidas, amigos e parentes deixaram a capela às pressas, e precisaram correr para entrar no cemitério.

Enquanto o caixão da menina era levado em direção à sepultura, ouvia-se o barulho dos tiros e dos helicópteros que sobrevoavam a região. “Até na hora de enterrar minha filha acontece uma coisa dessas. Perder uma filha é uma sensação terrível, não tem explicação. Ela estava feliz, há pouco menos de um mês comprei um computador novo para ela. E morreu sentada diante dele, com um tiro no peito ”, desabafou Roberto Alves, pai da menina.

Hospital preparado para a guerra

O Hospital Getúlio Vargas, na Penha, transformou-se, ontem, em uma unidade especializada para vítimas de guerra. Operadores do Samu foram orientados a só levar ao HGV feridos no confronto — oito atingidos foram socorridos lá, entre eles um PM e dois adolescentes, de 15 e 16 anos.

A emergência recebeu reforço de dez médicos e 20 enfermeiros, todos bombeiros. Cirurgias eletivas não ortopédicas foram canceladas e folgas de funcionários, suspensas. Dez leitos de CTI foram criados na UPA e, ao longo do dia, ambulâncias faziam a transferência de pacientes para outros hospitais. Da manhã de quarta-feira às 19h de ontem, 29 pessoas foram atendidas no HGV — quatro morreram.

Sargento do 16° BPM (Olaria), José Dantas, 43 anos, chegou às 14h no HGV após ser atingido por estilhaços de fuzil no braço esquerdo. Depois de receber alta, voltou para o confronto. O mototaxista da Vila Cruzeiro Osmar Sabino Julião, 21, chegou algemado após ser baleado no glúteo. Já no bolso de Ronald Henrique Nicanor, 23, baleado no braço foram encontradas duas cápsulas de pistola. O plano deverá se estender também ao Hospital Federal de Bonsucesso, que pode adiar as cirurgias eletivas.
Reportagens de Adriana Cruz, Alessandro Ferreira, Beatriz Salomão, Diogo Dias, Flávio Trindade, Geraldo Perelo, Isabel Boechat, João Noé, Leslie Leitão, Luarlindo Ernesto, Lúcio Natalício, Mahomed Saigg, Marcello Victor, Marco Antonio Canosa, Maria Inez Magalhães, Maria Mazzei, Paula Sarapu, Priscilla Costa, Rafael Cavalcanti, Raphael Zarko, Ricardo Albuquerque e Thiago Fere