sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

PM que fazia segurança para chefe do tráfico virou informante, trabalhou em delegacia e passou a comandar milícia

Vida dupla sob as ordens da polícia e à margem da lei


POR JOÃO ANTÔNIO BARROS
Rio - De investigado por ligações com o tráfico de drogas a parceiro no ‘combate’ ao crime. A vida dupla do cabo PM Wagner Dantas Alegre é descrita como uma parceria de ‘sucesso’ montada por agentes lotados na Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) para extorquir traficantes do Complexo de São Carlos, no Estácio.

Os detalhes da sociedade entre Dantas e o cabo reformado Ricardo Afonso Fernandes, preso na Operação Guilhotina, foram contados por uma das testemunhas que orientaram promotores do Ministério Público e agentes da Polícia Federal e revelam até a ‘doação’ de uma milícia na Baixada Fluminense, como um prêmio pelos bons serviços prestados por Dantas.

O negócio entre os policiais aconteceu por acaso. Os agentes da Drae monitoravam, em 2004, os telefonemas de Irapuã David Lopes, o Gangan, chefe do tráfico do Complexo de São Carlos na época. Uma das conversas grampeadas foi justamente a do traficante com o cabo Dantas, conforme o relato da testemunha.

Dantas aparecia como um dos seguranças do traficante e o cabo Afonso, cedido pela PM à Drae, resolveu procurar o colega de farda. Em vez da prisão, segundo o depoimento da testemunha, propôs uma parceria: Wagner Dantas passaria informações sobre o bandido, e eles dividiriam os lucros nas extorsões e na venda de armas e drogas apreendidas pelos agentes em outras favelas para o bando de Gangan.

Nem a morte do traficante, meses depois, interrompeu a sociedade. Os bons serviços deram a Dantas um salto na hierarquia: passou de informante a adido (PM cedido à Polícia Civil) na Drae. A ascensão fez o cabo ganhar espaço nas milícias da Zona Norte. Mas nada comparado ao presente que recebeu em agosto de 2009. Com a prisão de Juracy Alves Prudêncio, o Jura, ele herdou o cargo de chefe da milícia de Cabuçu e KM-32, um corredor entre dezenas de bairros pela Estrada de Madureira, em Nova Iguaçu, na divisa com Campo Grande, Zona Oeste do Rio.

A ideia dos milicianos era colocar um ‘homem de peso’ à frente dos negócios e impedir uma possível invasão da Liga da Justiça.
Rastro de mortes à frente de paramilitares na Baixada
A passagem do cabo Wagner Dantas Alegre pela milícia em Nova Iguaçu traz um rastro de sangue. O policial foi denunciado pelos promotores da 4ª Vara Criminal por ligação com grupo de extermínio. O bando é acusado pela morte de José Maria do Nascimento Neto e do filho Carlos David Lira do Nascimento, no ano passado. Dantas, inclusive, foi preso por envolvido no crime.

Segundo testemunhas do assassinato, o PM e outros dois homens invadiram a casa de José Maria, em janeiro de 2010, para matar Carlos David. Eles eram amigos, mas a ameaça de denunciar o bando levou o grupo a decretar a morte do rapaz. Dantas, segundo o relato das testemunhas, usava colete da Polícia Civil.

Mesmo feridos, Carlos e duas irmãs sobreviveram e denunciaram os criminosos. Um dia antes da audiência sobre a morte do pai, no Fórum de Nova Iguaçu, Carlos foi assassinado dentro do seu carro, num acesso à Via Dutra. Três homens da quadrilha são apontados na investigação da 58ª DP (Posse) como suspeitos do crime.