sexta-feira, 8 de abril de 2011

'Agradeci o Soldado por me dar mais uma vida', diz sobrevivente de massacre


Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
Jade sente o conforto do abraço da mãe, Lúcia, após a tragédia que matou seus colegas | Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
 Rio - Uma das crianças sobreviventes em Realengo, Jade Ramos, de 12 anos, falou nesta sexta-feira sobre a sensação de alívio após escapar da morte nas mãos do assassino Wellington em entrevista à Ana Maria Braga, no programa "Mais Você".

"Ele atirava mais nas meninas, então eu pensava que ia ser a próxima. Escrevi uma carta onde agradeci o soldado por me dar mais uma vida", disse a menina, se referindo ao sargento da PM Márcio Alexandre Alves, de 38 anos, que deu um tiro de fuzil no abdômen de Wellington e impediu a continuação do ataque.
>> FOTOGALERIA: Massacre em Realengo deixa o Brasil chocado

A mãe de Jade, Lucia, comentou durante a entrevista ao programa da TV Globo  que ficou apavorada ao chegar à sala de aula frequentada pela filha logo após o massacre. "Consegui entrar na escola e vi várias crianças mortas saindo e pensei que minha filha também estivesse morta. Foi horrível", lembrou.
Psicopata mata 12 estudantes em colégio municipal
Manhã de 7 de abril de 2011. São 8h20 de mais um dia que parecia tranquilo na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste. Mas o psicopata que bate à porta da sala 4 do segundo andar está prestes a mudar a rotina de estudantes e professores, que festejam os 40 anos do colégio. Wellington Menezes de Oliveira, um ex-aluno de 24 anos, entra dizendo que vai dar palestra. Coloca a bolsa em cima da mesa da professora, saca dois revólveres e dá início a um massacre em escola sem precedentes na História do Brasil. Nos minutos seguintes, a atrocidade deixa 12 adolescentes mortos e 12 feridos.
Foto: Paulo Alvadia / Agência O
 Dia
O sargento Alves (ao centro) recebe afago do coronel Mário Sérgio: maior emoção em 18 anos de corporação | Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
Transtornado, o assassino atacou alunos de duas turmas do 8º ano (1.801 e 1.802), antiga 7ª série. As cenas de terror só terminam com a chegada de três policiais militares. No momento em que remuniciava dois revólveres pela terceira vez, o assassino é surpreendido por um sargento antes de chegar ao terceiro andar da escola. O tiro de fuzil na barriga obriga Wellington a parar. No fim da subida, ele pega uma de suas armas e atira contra a própria cabeça.

Na escola, a situação é de caos. Enquanto crianças correm — algumas se arrastam, feridas —, moradores chegam para prestar socorro. PMs vasculham o prédio, pois havia a informação da presença de outro atirador. São mais cinco minutos de pânico e apreensão. Em seguida, começa o desespero e o horror das famílias.

A notícia se alastra pelo bairro. Parentes correm para a escola em busca de notícias. O motorista de uma Kombi para em solidariedade. Ele parte rumo ao Hospital Albert Schweitzer, no mesmo bairro, com seis crianças na caçamba, quase todas com tiros na cabeça ou tórax.
Wellington, que arrasou com a vida de tantas famílias, era solitário. Segundo parentes, jamais teve amigos e passava os dias na Internet ou lendo livros sobre religião. Naquela mesma escola, entre 1999 e 2002, período em que lá estudou, foi alvo de ‘brincadeiras’ humilhantes de colegas, que chegaram a jogá-lo na lata de lixo do pátio.
A carta encontrada dentro da bolsa do assassino tenta explicar o inexplicável. Fala em pureza, mostra uma incrível raiva das mulheres — dez dos 12 mortos — e pede para ser enrolado num lençol branco que levou para o prédio do massacre. O menino que não falava com ninguém deixou seu recado marcado com sangue de inocentes estudantes de Realengo.