sábado, 2 de abril de 2011

Disque-Rio trata problemas da Zona Sul com mais agilidade que na Norte

Durante uma semana, O DIA acompanhou e gravou contatos de cariocas com o 1746

POR THIAGO FERES
Rio - Criado para atender igualmente moradores de todas as regiões da cidade, o Disque-Rio — central unificada de serviços básicos do município — apresentou problemas na primeira ‘Blitz do DIA’, que estreia hoje. O principal motivo? Problemas iguais nas zonas Sul e Norte receberam tratamentos e prazos de atendimento distintos, com mais agilidade na área mais nobre. Num dos principais casos, a diferença chegou a exatos 85 dias, ficando 18 vezes mais demorada para quem vive na Zona Norte.

Durante uma semana, O DIA acompanhou e gravou contatos de cariocas com o 1746. O caso mais emblemático aconteceu na quarta-feira. Moradores de Copacabana e do Cachambi reclamaram sobre o tempo disponível para travessia nos sinais de trânsito. Ao estudante Diogo Nunes, 22 anos, o prazo dado para solucionar o problema na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Santa Clara, em Copacabana, foi de cinco dias. Já para o bancário aposentado, Jaime Cordeiro, 56, que enfrenta o mesmo problema na esquina das ruas Honório com José Bonifácio, no Cachambi, foram previstos 90 dias para a solução.
Morador de Copacabana liga para o Disque-Rio e reclama de sinal
Houve diferenças em outros serviços, como poda de árvore. A constatação gerou revolta nos presidentes de associações de moradores de bairros situados nas duas áreas. “Para o poder público, a nossa região (Zona Norte) é o segundo escalão da cidade. Cuidado por aqui, só nas eleições. Triste e revoltante”, afirmou Jorge Barata, da associação de moradores do Cachambi.

“O fato deve ser apresentado ao prefeito com a gravidade que ele requer. Para ele, o voto tem o mesmo valor aqui ou lá. Não pode haver essa preferência preconceituosa”, disparou Regina Chiaradia, da associação de Botafogo.

Professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a especialista em Sociologia Urbana, Sandra Maria de Sá, classificou a situação como perversa. “A condição socioeconômica é vista como fator primordial. Desde o início do processo de ocupação da cidade foi assim. O cuidado é outro pela influência de casa comunidade. Ali, (Zona Sul) há deputados, vereadores, etc. Outro bom exemplo é o tratamento dado ao metrô (estações) nas duas regiões”, analisou.

Ouça ligação de um morador do Cachambi para o Disque-Rio
Sistema ainda tem falhas

Inaugurado há 10 dias, o Disque-Rio ainda apresenta falhas, reconhecidas pela própria prefeitura, que admite estar ajustando o sistema. Um dos principais problemas é a falta de padronização dos atendimentos. Enquanto O DIA acompanhava os usuários, foi possível flagrar ligações sendo interrompidas sem justificativa.
O Disque-Rio conta com 230 posições de atendimento, mas ainda há dificuldades no direcionamento das demandas para cada órgão. A central custou R$ 26 milhões ao município. Ligações são tarifadas de acordo com cada operadora, e cobradas como telefonema local.
Sobre os problemas apresentados pela reportagem, a assessoria de imprensa da Casa Civil afirmou que o prazo de atendimento das solicitações não depende da região. “A prefeitura trabalha com planejamento de serviços em regiões. O prazo dado pode ter sido menor porque o atendente sabe quando há agendamento de serviços em determinada região em dia específico. Aí inclui a demanda. A maior organização da gestão permitem a agilidade”.

Tempo do Sinal

Zona Sul - Copacabana
Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
O estudante Diogo Nunes solicitou o serviço do Disque-Rio | Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
Previsão em dias: 5

Morador de Copacabana, o estudante Diogo Nunes, 22 anos, solicitou o serviço para aumentar o tempo de travessia para pedestres nos semáforos da Avenida Atlântica, na esquina com a Rua Santa Clara. Por lá, é impossível atravessar as duas pistas da avenida sem parar no canteiro central. Numa ligação sem transtornos, o jovem conseguiu fazer contato com o 1746 e denunciou o problema. “Se eu não consigo fazer a travessia de forma tranquila, tendo muitas vezes que correr, imagina os idosos, que são maioria aqui no bairro”.

Zona Norte - Cachambi
Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
O morador Jaime Cordeiro reclama que não há sinal nem faixa de pedestre | Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
Previsão em dias: 90

Bancário aposentado, Jaime Cordeiro, 56 anos, é morador do Cachambi. Frequentador de um bar situado na esquina das ruas Honório com José Bonifácio, se cansou de presenciar atropelamentos e idosos precisando correr para atravessar a via, por conta do tempo reduzido dos sinais de trânsito. Após três tentativas, conseguiu contato com o Disque-Rio, mas a ligação foi conturbada e a atendente repetiu inúmeras vezes a mesma pergunta.“É um abandono a rotina de quem vive por aqui. Não temos sinal, nem faixa de pedestre. Absurdo!”

Poda de árvores

Zona Sul - Botafogo
Foto: Carlo Wrede / Agência O Dia
Emílio Macedo está animado com a possibilidade de denunciar problemas cotidianos | Foto: Carlo Wrede / Agência O Dia
Previsão em dias: 5

Funcionário público e morador da Rua Barão de Lucena, em Botafogo, na Zona Sul, Emílio Macedo, 49, completou rapidamente a ligação para o Disque-Rio, apesar de o atendente sequer ter perguntado seu nome nos cinco primeiros minutos do telefonema. Ele animou-se com a possibilidade de denunciar problemas cotidianos. A via é uma das mais escuras da região e conta com um verdadeiro ‘túnel’ formado pela grande quantidade de árvores. “O serviço aqui é emergencial. Quando escurece chega a ser perigoso”.

Zona Norte - Pavuna
Foto: Carlo Wrede / Agência O Dia
Moradora da Pavuna reclama da demora no atendimento do serviço | Foto: Carlo Wrede / Agência O Dia
Previsão em dias: 15

Moradora da Rua Albertina Guerra, na Pavuna, a dona de casa Vanete Ribeiro, 46, recorreu ao Disque-Rio para pedir poda de árvore que ameaça cair sobre sua residência há cinco anos. Numa ligação realizada por volta das 15h30, foram necessárias três tentativas. Nas duas primeiras, a ligação caiu. Após 12 minutos de espera, ela foi atendida. “Um serviço como esse não pode demorar tanto. E a previsão é de que o local só seja visitado em até 15 dias corridos. Pelo menos, espero que o serviço seja efetuado. Minha família está correndo risco”.
Iluminação Pública

Zona Sul  - Copacabana
Previsão em dias: 7
O professor Paulo Jacobsen, 82, acionou o Disque-Rio para reclamar de lâmpada de um poste na Rua Miguel Lemos, em frente ao número 124, que não desliga e permanece acesa dia e noite.
Zona Norte - Todos os Santos
Previsão em dias: 8
Na Rua Honório, o bancário Carlos Alexandre de Moraes, 25, denunciou escuridão na altura do número 210. “Sempre passo aqui quando volto do trabalho. Sem luz, fica ainda mais inseguro”.
E-mail: blitzdodia@odianet.com.br